A saga de Fran e sua bike rumo às aventuras inimagináveis (1)

A gente gosta de uma aventura e a partir de agora vamos acompanhar as histórias da viagem da timboense, programadora de produção e tecnóloga em Processos Gerencias, Franciele Tais e sua bike. No texto a seguir ela começa a contar como tudo começou. Aos poucos vamos publicar suas histórias. Aventuras que nem ela conseguiu imaginar quando deixou sua casa em Timbó rumo ao desconhecido. São situações, pessoas, comidas e lugares que surpreenderam.  Na próxima semana publicaremos a segunda parte de como tudo começou e depois acompanharemos ela em vários momentos de sua viagem de superação, determinação e coragem.

Cada escolha, uma renúncia

Encontrava-me em um momento que minha vida tinha se tornado um turbilhão de situações e emoções. Sentia que ali já não era mais meu lugar.

Me joguei em uma aventura, e na época nem me dei conta de tudo que eu estava abrindo mão. Não pensei em nada. Nem ninguém. Só em mim.

Queria muito viajar, conhecer pessoas, lugares, culturas, e principalmente fui em busca de autoconhecimento. Mas não sabia nem por onde começar.

Após uma breve conversa pelo Facebook, com um colega Argentino, onde ele contou que em poucos dias iria começar uma viagem de bicicleta com uma amiga, pensei “Ali está minha oportunidade.” Conversei com ele novamente, e em 15 dias eu estava na Argentina.

Renunciei ao meu trabalho, vendi as poucas coisas que tinha, fiz uma festa de “despedida”, e comprei uma passagem de avião. Comprei o retorno para um ano depois, mas na verdade é que sai pensando em “não voltar”.

Ao chegar na Argentina, o Matyas e sua família me receberam em sua casa, e tínhamos cinco dias para organizar tudo, e comprar o principal, a bike. Sim, eu decidi viajar de bike, mas nem bike tinha (hahaha).

Comprei uma GT Palomar 1994, algumas poucas coisas de camping e saímos. Ele sua amiga Romina e eu.

Suas famílias e alguns amigos que nos ajudaram com a manutenção e fabricação das alforges pra bike, também nos acompanharam no primeiro final de semana.

Pouco tempo depois que pegamos a estrada (já não éramos três e sim cinco ciclistas).

Com eles estava aprendendo a falar o espanhol. Um mês e meio aproximadamente de viagem me perdi em uma descida, já era noite e me acidentei. Fiquei cinco dias no hospital, e um dente a menos. Como minhas condições financeiras desde que comecei a viajar nunca foram das melhores (rsrs), um dentista “del Pueblo” fez um tratamento de canal (da raiz) e decidimos “colar” o mesmo dente para seguir viagem e em outro momento fazer o implante.

O tratamento que o Dr. Matyas Paez fez, foi gratuito. E fiquei duas semanas convivendo com sua família, na casa deles.

Meus quatro companheiros acamparam os cinco dias próximo ao hospital e reconheço que por mais diferenças que tínhamos, o Matyas me acompanhou todo o tempo no hospital.

Sua família me acolheu como um membro da família, e também viajaram mais de 1.000 km pra estar com a gente, e não apenas uma vez. Nossa é de tirar o chapéu pra Dona Nelly e Seu Alfredo.

 

Na época só seguia os planos de viagem dos meus colegas, não tinha muito a ideia de onde chegar ou o que conhecer e fazer. Isso não quer dizer que não era bacana, era sim, mas sentia que faltava algo…

Uma coisa era certa. Ali nascia uma paixão. Pedalar e viajar

 

Com o tempo, e a convivência de 24h diárias com pessoas que estão recém se conhecendo, e que nem sempre são flores, já considerava a possibilidade de estar só, ou de encontrar outro grupo com o qual poderíamos ter mais afinidade, e traçar um caminho entre todos. O que também não seria tão simples, afinal muitos que já estão na estrada já têm seus planos, porém sempre têm aqueles que vão abertos a sair da “rota”.

A curiosidade de estar comigo mesma, na estrada, fazendo e realizando os meus planos estava cada vez maior. Comecei a “estudar” os mapas e traçar a rota de um ou dias. Com o incentivo e ajuda do Matias Daniele, que se somou ao grupo logo no primeiro mês de viagem, foi me instigando a cada dia.

Com Romina e Matyas compartilhamos momentos super engraçados, alguns (leia-se muitos) desentendimentos, aprendemos muito um do outro, mas era hora de partir. Éramos três pessoas totalmente diferentes, e às vezes encontrar o equilíbrio era difícil. E eu já estava desequilibrada o suficiente (risos) pra continuar nesse chove não molha (ahsiuhaiushiu).

Um mês e meio de viagem Romina  reacomodou os planos e seguiu com um brasileiro e o Daniele que estavam pedalando com a gente.

Um mês depois foi a minha vez

Compartilhei semanas de viagem com a Carlinha, já havíamos compartilhado muitos campings em várias cidades. Ela ia de caronas eu de bike. Até que ela comprou uma bike e aí seguimos juntas. Carlinha é sensacional. Nos entendíamos super bem. Temos uma personalidade, gostos e uma maneira de ver e viver a vida muito parecidos.

Carlinha e o Daniele foram os melhores companheiros de viagem que eu tive.

Carlinha voltou a viajar a mochila (caronas), atualmente está no México, e ali muito provável nos reecontraremos. E isso me deixa super feliz.

Quando ela foi receber sua prima de férias por 15 dias. Eu decidi ir encontrar com o Matyas Daniele, no centro da Argentina. (Com ele compartilhamos um mês de rutas)

Já havíamos comentado sobre as possibilidades de trabalho na cidade onde ele morava antes de viajar, dar um stop no pedal; melhorar os equipamentos; fazer um pé de meia e planejar a próxima rota. Quanto tempo? Seis meses. E foi o tempo que estipulamos para voltar para estrada.

 

Três meses que estava na Argentina, fui de Jujuy a Rosário.

Nesse meio tempo já vendia cucas por aí, fazia algo de artesanatos em couro de peixe, e muitas vezes reciclamos nos mercados municipais. Cheguei em Rosário e em menos de 15 dias consegui um trabalho de “meseira” e “bartender”, e aprendi na marra a pronunciar o espanhol que já entendia, porém a vergonha não me deixava praticar.

Renovei todos os meus equipamentos, montei uma bike nova, vendi a velha pra terminar de pagar o implante do dente, que antes não tive condições. Pra ver como a cola era boa hein (kkkk), durou uns oito meses, quando guardei uns trocados pra

pegar estrada novamente.  Tudo estava acontecendo dentro do planejado.

Com um mapa cheio de anotações, e aberta às possibilidades, mais uma vez peguei a estrada. Argentina – México, esse era o novo plano. Traçado por mim junto com o Daniele.

 

Viajamos juntos por um ano e quatro meses, nesse tempo em algumas rotas nossos mapas se abriam, tínhamos opinião e a vontade de fazer por caminhos diferentes, então cada um seguia sua escolha, e mais adiante nos encontrávamos e seguíamos. Matias sempre me incentivou também a ter essa experiência de viajar sola. Mesmo com receios e já acostumada estar acompanhada, era novamente sair da zona de conforto. E assim aconteceu, ao mesmo tempo em que tinha essa vontade de ir sola, também tinha receios, medos. Mas fui e gostei (rsrsr). Foi mais simples que eu imaginava.  E assim se repetiu por Chile, Peru, Equador e Colômbia também. Porém, na Colombia, já nos separaríamos sem saber se voltaríamos a nos encontrar ou em que momento.

As pessoas costumam dizer “nossa que coragem”, mal sabem elas que tenho muuuitos medos, porém sempre fui de arriscar. De seguir meu coração, minha vontade. Sou curiosa demais (rsrs). Sou daquelas que vou com receio mesmo.

Ainda no norte Argentino, adaptamos o mapa (como acontece com frequência) e fomos pra San Pedro de Atacama, no Chile.

É uma ruta muito cobiçada e respeitada por ciclistas. Li muito sobre esse trajeto, a experiência de outros viageiros, clima, altitudes, distâncias, etc.

Sabia que seria difícil, mas me propus ao desafio. E, queria cruzar só. Por que? Não sei (rsrs).

Na ida foram seis horas de caminhão. Na volta? Seis dias de bicicleta.

 

Em San Pedro de Atacama trabalhei em uma agência de turismo e também em um hotel. Ali estive por três meses, me apaixonei por esse deserto e toda sua diversidade. Acredito seja meu lugar preferido até o momento.

Dia 29 dezembro 2016, carregando pouco mais de dez litros de água e comida para três dias, minha bike nunca esteve tão pesada. Era a primeira vez que iria pedalar só por um trajeto de  seis ou sete dias.

O primeiro dia foi o mais difícil, peguei a estrada às 5h30min da matina. Pedalando, terminei o dia às 16h empurrando a bike morro acima, a maior parte do dia. Kilometragem do dia: 34 km, sofridos.

 

Sombra pra descansar? Só atrás das placas de trânsito.

Acampei em meio ao deserto, vento de todos os lados, quase pus fogo na barraca tentando cozinhar, me assustei e desisti da ideia. Comi meio pão, um salame, frutas, chocolate, e meia lata de feijão (Kkkkk). Sim era muita fome, ansiedade, aquele arrepio de acampar sozinha em meio ao deserto… sabe né. Nós mesmos criamos nossos monstros em nossas cabecinhas (hahaha).

Por ser uma ruta turística, tive muito incentivo das pessoas que passavam de carro para tours. Os motoristas já me chamavam pelo meu nome, e me levavam água, frutas e chocolates. Motociclistas brasileiros com os quais me diverti bastante em nossas breves conversas pelo caminho, e um casal de franceses acima dos 65 anos, fazendo o mesmo trajeto, na direção contrária, pessoas que cruzam com teu caminho e que renovam as energias.

Na fronteira

No 3°dia, 31 de dezembro por volta das 17h50min cheguei na fronteira Paso de Jama. Uma euforia, felicidade, um suspiro de dever cumprido, de superação, de êxito. Um sentimento que é impossível explicar com palavras. Ria, chorava, gritava, e ria de novo. Nem parecia que estava na metade do caminho, e faltavam outros três ou quatro dias até Purmamarca.

Nos três primeiros dias não havia nada de nada. Eram os dias mais difíceis em questões de altimetrias, chegando duas vezes aos 4.800m sob o nível do mar. Três dias de muuuuito sol, vento constante (contra) e noites congelantes, quando dormia com luvas, touca, jaqueta de plumas, duas calcas e meias térmicas. Passei frio igual!

Três dias sem banho

Quando cheguei na fronteira o cansaço desapareceu. Sentei ali e um filme passava na minha cabeça. Poha! EU CONSEEEEEEGUI. Eu quis tanto, me preparei tanto mentalmente, e consegui!

Nunca me senti assim na vida. Tão satisfeita, orgulhosa, feliz. Tão grata comigo mesma e com as pessoas que me incentivaram pelo caminho. Três dias que eu era meu maior incentivo, e minha própria companhia”.

Continua…

 

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